domingo, 19 de fevereiro de 2017

Análise do poder no anarquismo e em Foucault

Para o anarquismo essencialista e ateneuista a análise que Foucault fez do poder é de suma importância para somá-la e assim acrescentá-la às reflexões anarquistas. Principalmente:

1 - O seu empirismo de analisar a história sem a metafísica. Sem utopias nem profecias

2 - De focar, como os anarquistas fizeram, suas pesquisas no poder e sua relação e efeitos sobre o sujeito sujeitado.

3 - A reedição com o cuidado de si que fez sugerir a transformação do sujeito a partir dos estóicos, epicuristas e outros para, mudando a si mesmo, enfrentar a sujeição e assim mudar o mundo sem tomar o poder.

4 - A crítica ao economismo de Marx e focar no poder e nas verdades criadas pelo poder na história para sujeitar o sujeito e não a economia como a causa única da sujeição.


Aqui não me interessa ficar, o que é muito comum entre acadêmicos, em especulações intermináveis. O que me fez somar, digo somar, o pensamento de Foucault com o anarquismo é que ambos analisaram como objeto de pesquisa o poder e não como resultado da economia e metafísicas, hegelianismo etc. Não me importa se o anarquismo e Foucault disseram ou não disseram isto ou aquilo. O que importa é que com suas análises de como o poder é exercido ambos deram muitas contribuições para, no aqui a agora, estarmos mudando o mundo com a libertação de milhões de pessoas. O que incluiu muitas mulheres não apanharem mais dos homens, os negros e outras cores da pele e formas das pálpebras terem leis que tornaram crime o racismo, que as diversidades sexuais e de gênero e muitas outras liberdades são garantidas por leis etc. E os países, que seguiram o equívoco de atrelar e analisar o poder como uma consequência da economia, voltaram quase todos, depois de violentas ditaduras executada por sua nova classe social de privilegiados formada pelos seus ditadores, ao capitalismo. Cuba e China estão sendo os mais recentes. Já o anarquismo e Foucault estão, com seus postulados, contribuindo e muito, pela libertação de milhões de pessoas em todo mundo. São lutas sem partido, específicas contra relações de poder, pacificamente muitas vezes, que levam a reboque os políticos e a maioria das pessoas e finalmente mudando o mundo sem tomar o poder. Porque o poder não existe o que existe são as microfísicas do poder. Mudando o bolo se muda a glace e não o contrário. Mudar só a glace do bolo não se mudou o bolo. O que existe são relações de poder e só as mudando para as relações humanas sem exercício de poder em toda a sociedade tem sido o que está, de fato, mudando o mundo a cada minuto no aqui e agora sem utopias nem profecias.
Mas se quiserem leiam o livro de Salvo Vaccaro O Anarquismo e Foucault.




Anarqueologia de Foucault e outros textos importantes

Em 1980 Foucault ministrou um curso Do Governo dos Vivos no Collège de France. Neste curso ele se refere ao que chamou de anarqueologia. É um livro importante e deve ser lido com atenção pelos anarcofoucoultianos.

Nildo Avelino assim comentou:


1- O anti-Édipo: uma Introdução a uma vida não fascista. (Prefácio à edição americana de O anti-Édipo. Capitalismo e esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Foi retomado em Dits et êcrits, de Foucault (Gallimard). O título é da redação do Magazine Litteraire, onde foi publicado pela primeira vez em francês. Trad. Fernando José Fagundes Ribeiro).
Prefácio (Anti-Édipo) em Ditos e Escritos VI página 103 em 2011 pela editora Forence Universitária.
2 - O Sujeito e o Poder na página 118 do Ditos e Escritos IX em 2014 pela editora Forence Universitária.
3 - Em Defesa da Sociedade. A aula de 14 de janeiro de 1976. Publicado no Brasil pela Editora Martins Fontes.
4 - As Malhas do Poder na página 169 dos Ditos e Escritos n. VIII em 2012 pela editora Forence Universitária.
5 – Em A Hermenêutica do Sujeito. A aula de 20 de janeiro de 1982. Publicado no Brasil pela Editora Martins Fontes. Seguida da Carta n. 50 de Cartas a Lucílio de Sêneca. Publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Aliás, se deve ler e praticar, com sensatez, todas as Cartas a Lucílio de Sêneca e outros estóicos, epicuristas e os cínicos.


Resumo do Anarquismo Essencialista Vitorioso

O anarquismo é contra a dominação do homem pelo homem em todas as relações humanas. É o oposto de qualquer tipo de autoritarismo.
O anarquismo vitorioso está tornando viável, no aqui a agora, esse ponto de vista.
Para isso ele propõe:
1 – O anarquismo é a teoria e prática da ação direta sem partidos nem intermediários, autogestão e apoio mútuo para, sem utopia nem profecia, mudar pacificamente o mundo, no aqui e agora, sem tomar o poder. Visa, com  a disseminação de construção de relações humanas sem exercício de poder, mudar o mundo consensualmente, por todos e para todos. Suas ações são algumas vezes específicas como a libertação das mulheres, do racismo, de ditaduras sexuais, de diferenças de rendas e salários e estão acontecendo internacionalmente. Sempre sem partidos nem autoritarismo com movimentos sociais, culturais e políticos que têm sido vitoriosos mudando o mundo sem tomar o poder e assim livrando da exploração, humilhação e dominação milhões de pessoas.

2 - Mudar o mundo sem tomar o poder é porque o poder não existe. O que se presencia como o poder é o resultado de inúmeras pequenas e cotidianas relações de poder, que atuam em rede, acumulando-se e formando o poder administrativo geral, que é o Estado e o Governo, que se constituem e se apoiam nelas. O que se vê na forma de Estado e governo, é resultado de micros relações de poder que os formam como administradores gerais delas.
Agora podemos entender melhor porque os anarquistas sempre diziam que só era possível uma sociedade realmente igualitária e libertária sem o Estado e o governo. Eles compreenderam que só seria possível uma vitória libertária se não existisse o Estado e o governo. Atualmente muitos países têm conseguido transformar o Estado e o governo de um poder absoluto por democracias que cada vez mais nelas o Estado e o poder serem administradores da liberdade de todos.
3 – A grande percepção do anarquismo e de Foucault foi focar suas análises na dominação do homem pelo homem no poder e como ele se exerce e não na economia política de Adam Smith e David Ricardo que levou Marx e seus seguidores, a ficarem aprisionados nesse aquário epistemológico de imaginar que o poder é um resultado, ou seja, um epifenômeno da economia. Todas as derrotas de muitas revoluções que não atingiram o seu objetivo de libertação e seus lideres se transformaram em uma nova elite ditatorial se iniciaram com esse equívoco epistemológico.
4 - Por isso tomar o poder nunca se consegue mudar a dominação porque teria de modificar todas as relações de poder que o formou. Não se consegue fazer isso de cima para baixo. Só é possível, como estamos vendo, de baixo para cima. Porque de cima para baixo terá de ser uma ditadura, disfarçada ou não, por isso mesmo ineficiente, que gera sempre uma nova elite dominante, corrupta e enriquecida em detrimento de todos. Daí a necessidade de cada vez mais dominação, corrupção, golpes de Estado e péssimas qualidades de vida para todos.
Quem tomar o poder tem de ser ditatorial gerando uma casta privilegiada, sempre paranoica e corrupta, porque dona do poder conquistado a força tem medo de perdê-lo e serem executados como ocorreu com quase todos. Nunca se toma o poder. Não se consegue fazer isso de cima para baixo. Só é possível, como estamos vendo, de baixo para cima. Porque de cima para baixo terá de ser uma ditadura, disfarçada ou não, por isso mesmo ineficiente, que gera sempre uma nova elite dominante, corrupta e enriquecida em detrimento de todos. Daí a necessidade de cada vez mais dominação, corrupção, golpes de Estado e péssimas qualidades de vida para todos.
A não percepção disso é que cria a ilusão de tomá-lo e o não exercê-lo. Quando, na realidade ele, ao passar por você em rede, no que Foucault chamou de as malhas do poder, o habita e o dirige e não o contrário. O poder se exerce em rede na qual você é apenas uma transmissão dele seja em que parte da rede você estiver.
Não se toma o poder ele é que lhe arrebata e o possui.
A solução revolucionária é quando você deixa de ser o condutor que o faz transitar em você e cria alternativas de relações humanas sem exercício de poder. E é isso que é ser anarquista e tem mudado o mundo no aqui e agora sem tomar o poder.
Por isso a transformação do poder em uma democracia libertária plena deve ser feita pacificamente por consenso que é a compreensão de todos ou da maioria que se pode, com libertações específicas de dominados mudar o mundo sem tomar o poder. O conjunto dessas vitórias nessas lutas, sem amos nem dominados, estão transformando o que chamamos hoje de Estado e de governo, em unicamente administradores das várias liberdades de todos.
É assim que o anarquismo tem se tornado, a cada momento, uma realidade.
Já estamos vendo se esboçar em alguns países, o que poderemos chamar de pré-anarquistas, uma democracia libertária plena.
5 – Por isso uma grande parte do anarquismo é mostrar a ineficiência das relações de poder em todas as suas organizações e manifestações ao longo da história. Evidenciar, com argumentos, devidamente pesquisados e fundamentados, a estupidez, desinformação e ingenuidade de muitos diante do autoritarismo. Assim se tem conseguido, pacificamente, com o consenso ou a opinião da maioria, mudar o que é injusto resultado da dominação do homem pelo homem.
O anarquismo tem vencido formando opiniões libertárias e mudando mentalidades  em todos os tipos de relações humanas. Sua prática é mudar a mentalidade autoritária das pessoas em libertária. É um formador de opiniões tanto nos diálogos como nos seus exemplos com suas práticas de transformar relações de poder em relações sem o exercício de poder.
O anarquismo vitorioso, com vários nomes e nem sempre se dizendo anarquista, tem mudado o mundo. Está conseguindo mudar: escolas, que se tornam gradativamente mais libertária; relações entre homens e mulheres sem o exercício de poder; a liberdade de expressão com a eliminação dos censores e das censuras; o fim oficial do racismo; a defesa social e jurídica do amor livre para todos e, em alguns países, a gradativa eliminação de diferenças de rendas e salários. Enfim a construção da liberdade e igualdade para todos em todas suas condutas e maneiras de ser e é isto que é anarquismo. O anarquista visa mudar micros relações de poder em relações sem o exercício de poder para transformar o poder, sem o tomar, fazer surgir uma democracia libertária plena.
6 – O anarquista vitorioso aplica nele mesmo o que Foucault chamou de a estética da existência com o cuidado de si, ou seja, a formação de sua subjetividade inspirada na cultura grega antiga. Ele desenvolve sua ética a partir do respeito a liberdade de si e dos outros. E a partir daí com uma série de exercícios de autocontrole formar sua subjetividade libertária, cujo principio é: não ser dominado nem por si nem pelos outros. Por isso ele luta, na sua preparação revolucionária pacífica, eficiente e libertária, não ser o escravo das coisas, dos outros e, principalmente, de si mesmo.
Os anarquistas sempre pensaram assim. Confirmem com a leitura das biografias de todos eles. Daí a importância para muitos anarquistas do pensamento de Foucault em todos os seus livros e principalmente A Hermenêutica do Sujeito; o pensamento dos anarquistas Emile Armand, Han Hyner em todos os seus escritos; de Paul Veyne, Pierre Clastres, Pierre Hadot em todas as suas obras. O anarquista vitorioso não ver nem faz nenhuma diferença entre o anarquismo individualista ou como estilo de vida e os que lutam em grupos pela transformação do que é ser injusto e autoritário. Somar para ele é mais importante do que dividir. Cada um pode ser anarquista como quiser ser e todos somam. Aliás, todos que querem libertar-te e seus semelhantes da dominação e suas consequências como a miséria é anarquista. Não importa o nome nem suas práticas desde que sejam libertárias, isto é, sem dominadores, sem profissionais do poder, pacificas por serem mais eficientes. Os anarquistas somam pessoas livres e não submissas. Somam elas e multiplicam e não diminuam ou dividem.
7 - O anarquismo denuncia o dominador que é a causa de todas as misérias sociais, econômicas e políticas. Seu foco de análise é o poder ou seja a relação do dominador com o dominado. E sua prática é como sair dessa relação de poder que criam macros relações de dominação, ou seja, ditaduras disfarçadas ou não.
A prática anarquista para conseguir eliminar dominadores, fora e dentro de si, cria relações humanas sem o exercício do poder em todas as instâncias. Funda organizações sem exercício de poder e heteropias anarquistas no aqui e agora.
Com esses dois instrumentos políticos, a critica ao autoritarismo disseminado em você e na sociedade constrói relações humanas sem o exercício de poder, o anarquista vitorioso está mudando e eliminando o fascismo de todos os tipos da face da terra.
Para eliminar a possibilidade de surgirem novos dominadores se dizendo revolucionários os anarquistas não criam partidos nem organizações semelhantes e essa tática eles chamam de ação direta. Quer dizer não serem massas de manobras dos profissionais do poder.
Atualmente o número de pessoas praticando o anarquismo, sem ter lido seus autores e sem dizer o nome, é muito grande. Perceberam, diante de tantos fracassos, resolver agirem anarquicamente e têm conseguido mudar o mundo sem tomar o poder. E, assim sendo, o anarquismo está sendo vitorioso.
Para maiores detalhes leiam as reflexões de Uri Gordon Anarquia Viva Política Antiautoritária Da Pratica para a Teoria.
Lembrem-se sempre:
Não se toma o poder o poder é que lhe possui porque ele se exerce em rede na qual você é apenas uma transmissão dele seja em que parte da malha você está. Você só escapa quando deixa de ser  parte da rede se recusando a exercer relações de poder na família, no trabalho e em todas as relações humanas.

Resumidamente é o que se sugere como estamos vencendo o autoritarismo e as dominações

 1 – A crítica fundamentada contra todas as formas de relações de poder que formando opiniões termina por ter a maioria lhe apoiando. Mudando mentalidades por formadores de opinião anarquistas. Apoiar a todos que lutam, pacificamente e de acordo com as leis vigentes, para se libertar todos de relações de poder. O anarquismo denuncia o dominador que é a causa de todas as misérias sociais, econômicas e políticas. Seu foco de análise é a relação do dominador com o dominado e como sair dessas micros e macros relações de poder, ou seja, relações de dominação.
  2 – Experimentar e criar relações humanas sem o exercício do poder em todas as instâncias. Com esses dois instrumentos políticos você estará mudando e eliminando o fascismo de todos os tipos. O número de pessoas anarquistas praticando o anarquismo, sem dizer o nome, é muito grande. O anarquismo vitorioso conseguiu, ao divulgar essa maneira de viver e de mudar o mundo, gerar movimentos e lutas sociais que têm tirado da sujeição milhões de pessoas em vários países no aqui e agora sem utopia nem profecia .

3 - Estudar as sociedades autoritárias e descobrir e aproveitar, legalmente, suas brechas para, no aqui e agora, beneficiar as pessoas anarquistas vencedoras que praticam relações humanas sem exercício de poder.

O Anarquismo Essencialista

Introdução
O anarquismo aqui chamado de anarquismo essencialista é o que segue os ensinamentos dos teóricos e criadores do anarquismo que, com suas práticas, têm cada vez mais, livrado da miséria e sujeição  milhões de pessoas na atualidade. Portanto sem se afastar da essência do anarquismo. E, ateneuista, substituindo os partidos políticos por os seus ateneus.  Quando estou dizendo que o anarquismo essencialista e ateneuista tem libertado da sujeição e da miséria milhões de pessoas em todo mundo é porque a seu postulado básico é sua recusa da dominação do homem pelo homem. O anarquismo é isto: recusar a dominação do homem pelo homem em todas as relações humanas. E isto tem conseguido livrar  milhões  de pessoas em todo mundo da infelicidade da sujeição que é a porta aberta para todo tipo de exploração. Portanto horizontalmente substituindo relações de poder por relações humanas sem exercício de poder nas escolas, famílias, gêneros, trabalho, eliminando todo tipo de censuras de acesso as informações, artes etc.  
Quer dizer: foi a partir se organizar de forma autogestionária, horizontal e com imenso respeito pela liberdade de que se está, de fato, mudando o mundo e não substituindo elites que fazem o mesmo das anteriores. 
Os anarquistas sempre se organizaram em ateneus libertários e disseminaram, nas sociedades em que viviam, seus pontos de vista. A origem da palavra ateneu que me pareceu mais exata foi: "Em Atenas, na Grécia Antiga, lugar público dedicado à deusa Palas Atena , onde os poetas e literatos vinhem ler suas obras". Por isso os anarquistas criaram ateneus libertários de estudos e pesquisas e  suas práticas políticas é a disseminando de seus pontos de vista visando mudar, pacificamente, opiniões para mudar mentalidades autoritárias e dominadoras em vários tipos de relações de poder. Portanto eles sempre foram essencialistas e ateneuistas. A sua organização e proposta são diferentes das dos outros. Suas ações também. E a história está cada vez mais mostrando que para se libertar de fato só o anarquismo essencialista e ateneuista pode fazer porque tem provado atualmente com suas práticas mudado o mundo de forma justa, igualitária e libertária para todos.
Portanto aqui se pratica o anarquismo essencialista e ateneuista e não partidos e outras organizações verticais com seus presidentes que, se conseguirem tomar o poder, como história tem mostrado sempre e monotonamente, serão os futuros privilegiados e ditadores.

Características
Uma das principais características da prática do anarquismo essencialista e ateneuista é se organizar em ateneus libertários. Neles se efetua as pesquisas de relações humanas sem o exercício do poder. São os maiores centros de pesquisas políticas, psicológicas e sociais que existe. Suas teorias e pesquisas passam a ser praticadas nas sociedades de quase todo mundo como ocorreu com o feminismo, a eliminação da palmatória nas escolas, o fim do Pater Familiae, do racismo, o amor livre com o divórcio, as rendas das pessoas serem semelhantes, o que alguns países atualmente já estão tentando fazer. Aos que têm pouca memória, uma espécie de Alzheimer político, cabe lembrar que os primeiros a sugerir essas mudanças, e foram muito combatidos por isto, foram os anarquistas. Não foram religiosos, políticos de vários partidos etc. Muito pelo contrário se uniram sempre contra.  Todos eles ou calavam sobre essas reivindicações ou as perseguiam. Os profissionais do poder, que se convencionou se chamar de políticos, foram inicialmente contra ou emudecidos sobre a liberdade das mulheres, a luta contra o racismo, o amor livre para todos. Mesmo os marxistas que achavam que só as lutas de classes importava e não importava o maridão dar porrada na mulher, negros não existem o que existem são classes sociais. Essas foram as viseiras deles que Foucault muito bem mostrou que Marx ficou aprisionado,  como um peixe em um aquário do século XIX, quando se deslumbrou com a economia política criada por Adam Smith e David Ricardo. 
O ateneu libertário não é nem partido nem sindicado é essencialmente uma organização cultural que visa formar opiniões libertárias para mudar mentalidades e assim mudar pacificamente no mundo o que nos indigna. Assim sendo um ateneu liberário deve visar esses objetivos:
1 – Mudar o mundo sem tomar o poder
Esse postulado de não tomar o poder é porque o poder, seja qual for e onde seja executado, tem suas próprias regras e maneira de ser que, em vez da ilusão de se tomar o poder,  é ele que nos toma e nos faz dele o seu servo. A história tem provado isto em todas as relações humanas, países, governos etc. 
2 – Visa disseminar os principais pontos de vista anarquistas 
A teoria anarquista é como uma espécie de estrato teórico semelhante ao de uma essência de um perfume que se espalha pela sociedade e assim muda o que é autoritário e ditatorial pela compreensão e consenso da maioria no exercício de relações humanas sem o exercício do poder. Ele muda, transformando desde as micros relações de poder específicas, família, escolas, amor etc, em relações humanas gerais em uma soma de cada uma delas específicas em relações humanas sem o exercício d de poder. Assim age porque é a soma dessas micros relações de poder que sustentam o Estado e os governos. Por isso a contribuição de Foucault sobre os seu conceito de as relações de poder foi, para o anarquismo, de muita importância assim como também  pensadores como Pierre Clastres e Jacques Monod.
3 – As vitórias do anarquismo essencialista e ateneuista
Esse tipo de anarquismo pode ser chamado também de anarquismo vitorioso porque tem atualmente salvado milhões de pessoas em lutas específicas sem partidos e sem organizações autoritárias da sujeição e exploração. Essas lutas específicas, que são de fato sociais e não falsas lutas sociais visando criar novas elites ditatoriais, foram as que criaram o feminismo, as lutas anti-racismo, eliminação de todo tipo de censuras, libertação dos prazeres sexuais para todos implantando o amor livre sempre postulado pela maior parte dos anarquistas, eliminando a miséria de todos por igualdade de rendas e salários. Essas lutas específicas associadas têm levado os partidos, igrejas e focos de dominação a reboque. Essas lutas libertárias  têm sido as únicas vitoriosas atualmente em muitos países. São as únicas que têm mudado o mundo no aqui e agora e os partidos atualmente vão a reboque imersos na descrença de todos diante das história dos partidos que os estão sepultando. A força, como sempre foi, para mudar as injustiças são as pessoas e não intermediários. Cabe aos anarquismo mostrarem a injustiça e a solução e todos terminam por compreender e aí nada o impede de transformar a sujeição em liberdade. 
4 – A estratégia e pratica libertária do anarquismo essencialista e ateneuista é a transformação do poder
Ele não visa tomar o poder, mas o transformar, de baixo para cima com a eliminação, em toda a sociedade, as microfísicas do poder que sustentam o Estado e o governo. E então transformando o Estado, o governo e o poder em uma democracia  libertária plena. Quer dizer elas estão gradativamente, em alguns países, transformando o Estado e o governo, em instituições que eliminaram todas as repressões e deram igualdade de rendas a todos e sua função é administrar e garantir a liberdade e igualdade de todos.
5 – Mudando o mundo no aqui e agora sem utopias nem profecias
Isto não é uma utopia já estamos vivenciando em alguns países que estão cada vez mais  sendo libertários. Não são ainda totalmente anarquistas mas caminham em direção a sociedades o mais libertárias possíveis. Portanto a vitória revolucionária e política,  do anarquismo essencialista e ateneuista foi porque, pacientemente, disseminaram sua maneira de pensar e viver em todo o mundo. Quer dizer: mudando opiniões para mudar mentalidades e, assim sendo, repito, transformando o poder em organizador das liberdades e igualdades de todos sem privilegiados e novas elites. Essa transformação o que conhece como poder hoje é substituído por uma administração libertária extremamente organizada e eficiente. 
6 – Resumo das ações e práticas do anarquismo essencialista e ateneuista:
1 - Criar ateneus libertários.
2 – Divulgar as teorias anarquistas essencialistas e ateneuista. Praticá-las, aqui e agora, nos seus ateneus, criando cooperativas, escolas, atividade artísticas e muitas outras sem relações de poder. O foco sempre é criar organizações horizontais, sem chefes e partidos, gerando autonomias associadas para todos.
3 - Efetuar críticas sistemáticas e constantes, em todas as relações humanas que exerçam o autoritarismo e a dominação do homem pelo homem. Essas críticas fundamentadas em pesquisas rigorosas é que têm feito mudado a repressão e sujeição de milhões de pessoas, no aqui e agora, sem utopia nem profecias. A meta é formar opiniões, divulgá-las e mudar, na maioria, mentalidades autoritárias para mentalidades libertárias no consenso devido a força da argumentação e de suas práticas. Essa sempre foi a ação principal do anarquismo que hoje enfatizamos e descrevemos com o que chamamos de anarquismo essencialista e ateneuista.
4 – Seu foco é o poder e não a economia ou outros equívocos epistemológicos para analisar as mudanças sociais e políticas.
5 – Criar, organizar e participar de todas as lutas específicas associadas. Mas sem partidos e líderes que no futuro formarão elites milionárias e autoritárias. E a história tem mostrado que em todas as épocas e em todos os continentes nas mais diferentes culturas e desenvolvimentos econômicos uma elite substituindo outra e estabelecendo ditaduras e as mesmas explorações que se diziam ser contras.  
6 – Organizar respeitando a pluralidade e evitar unicidade.
7 - Avaliar a eficiência de uma teoria na prática e eliminar a que for ineficiente.
8 – Ter, como um termômetro político, a avaliação da qualidade de vida das pessoas quer em um país ou qualquer tipo de associação o que inclui também a vida das pessoas nos ateneus libertários e a sua própria existência individual.
Conclusão:
O anarquismo essencialista e ateneuista tem sido vitorioso porque tem sido eficiente em livrar, no aqui e agora, com vários nomes em organizações, sem exercícios do poder, milhões de pessoas da dominação e da miséria.




 Leia mais nossas propostas e ações e entre em contato caso se identifique com elas.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

               O Porquê das Vitórias do Anarquismo Contemporâneo

            Ricardo Líper

            A principal dúvida que levava muitas pessoas a ficarem apreensivas com o anarquismo era a eliminação do Estado e do governo. Muitos preferiam a sujeição à desordem e o caos que imaginavam ocorrer se as ditaduras fossem eliminadas. Tinham medo de que os mais fortes iriam matar os mais fracos e viverem todos lutando entre si. Viviam sobre a sombra do contrato social de Rousseau.  Por isso muitos ainda se referem às ditaduras militares, ao fascismo ou mesmo ao nazismo como sinônimo de ordem e culpam, até se um trem atrasar, a democracia. Nesse sentido você pode avaliar seu grau de nazismo quando, equivocado, pensa que ordem é sinônimo de nazismo e que liberdade é desordem. Essas pessoas sofrem de anarcofobia ou mesmo liberfobia
            Entretanto a história revolveu este problema e agora está deixando claro o que significava quando os anarquistas diziam ser fundamental uma sociedade sem Estado. Cabe se perguntar o que se entendia, quando surgiu o anarquismo, como Estado e governo.
            O que ocorreu é que os anarquistas perceberam que só a liberdade é o método para organizar uma civilização e não a violência de uma ditadura seja com que nome se apresente. É, a partir da liberdade, que se deve organizar qualquer tipo de relações humanas senão elas fracassam e, sob muitos pretextos, exercem dominações que são relações de poder. Por isto os anarquistas propuseram então uma democracia verdadeira e plena e não uma falsa democracia. Daí suas micro experiências, mesmo em sociedades autoritárias, de relações humanas sem relações de poder e em sua ação política já elimina relações de poder entre seus militantes e nas formas de lutas pela liberdade de todos.
            Os anarquistas chegaram a essa conclusão porque o seu foco de pesquisa foi o poder e a liberdade. Escaparam do equívoco epistemológico de, em vez de analisar o poder e a liberdade, analisar o poder como resultado de outra coisa que não fosse nem o poder nem a liberdade. Foi um equívoco porque, na pesquisa do objeto de pesquisa que é o poder foi substituído pela economia, religiões, filosofias, mas não a análise e objeto de pesquisa ser o próprio poder. O poder passou a ser o resultado de premissas que justificavam e explicavam sua existência e, portanto, a dominação do homem pelo homem. Foi nesse equivoco epistemológico que na prática todas as revoluções se transformaram em anti-revoluções substituindo elites por elites ditadoras e possuidoras de todos os bens do país sejam com que nomes se dominaram. Tanto religiosos, marxistas, socialistas de todos os tipos, na suas práticas, nos mais variados paises e épocas, o que é diagnosticado são: ditaduras, censuras e diferenças muito grande de rendas levando grande parte a pobreza ou miséria com todas as consequências: prisões, execuções, assassinatos, assaltos etc. Esses dois sintomas: diferenças de rendas e salários e dominação através de censuras de comportamentos de todos é que diagnosticam uma sociedade autoritária com uma elite exploradora e dominadora.  
            Entretanto a história tem mostrado que os anarquistas tinham razão e resolveu a questão de propor organizar a sociedade em democracias plenas e libertárias. A solução contemporânea comprovada pelos fatos é o governo e o Estado se transformarem em administradores da liberdade. E isto está ocorrendo com muitos países que já desenvolveram democracias mais libertárias com uma qualidade de vida melhor do que em todos os países que optaram por ditaduras ou falsas democracias. Agora podemos entender o nem Deus nem o Estado dos anarquistas. Na realidade surgiram outros deuses e, se quiseram, outros Estados porque, se o Estado é democrático de fato, deixa de ser o que os anarquistas sempre chamaram de Estado como  sinônimos de dominação. Isto é, uma ditadura fingindo, ser democracia. Sendo uma organização libertária de uma sociedade o nome se é Estado ou não pouco importa. O que importa é ele ter como principal função garantir a liberdade de todos.
             As provas, da eficiência dos métodos e objetivos libertários dessa construção de uma democracia verdadeira e plena, que é o anarquismo, estão diagnosticados abaixo:

            Até bem pouco tempo muitos pensavam que:
            Não poderia existir, porque se dizia ser um caos e a desordem, uma sociedade sem reis.
            Não poderia existir, porque diziam ser um caos e a desordem, famílias sem o pai sendo o chefe humilhando, espancando e às vezes matando mulheres e filhos.
           Não poderia existir, porque diziam ser um caos e a desordem, escolas sem a palmatória e alunos sem castigos físicos e torturas psicológicas.
            Não poderia existir, porque diziam ser um caos e a desordem, uma mulher ser médica, engenheira, militar, policial ou qualquer outra profissão a não ser dona de casa ou de prendas domésticas.
            Não poderia existir, porque diziam ser um caos e a desordem, a separação, depois do casamento, a não ser pela morte de um dos cônjuges.
            Não poderia existir, porque diziam ser um caos e a desordem, homens casarem com homens e mulheres casarem com mulheres.
            Não poderia existir, porque diziam ser um caos e a desordem, aceitar que brancos, negros, amarelos, vermelhos ou que cor da pele tivessem fossem iguais e com os mesmos direitos.
          Não poderia existir, porque diziam ser um caos e a desordem, que todos, independente da idade, pudessem ler, ver e dizer o que quisessem e seguir as crenças e filosofias que achassem melhor.
            Não poderia existir, porque diziam ser um caos e a desordem, que as pessoas se pintassem, tatuassem, se vestissem e penteassem como quisessem. Eram proibidas de serem donas de seus próprios corpos. Os seus corpos eram vampirizados pelos seus dominadores através das heterodisciplinas e do biopoder. O que os anarquistas e Foucault sempre postularam não foi a indisciplina mas a autodisciplina na qual o sujeito sujeitado supera a sujeição e enfrenta o poder como o mestre de si mesmo. Para além da educação vertical ser autônomo. Praticar a autonomia que é sempre criada por ele mesmo. Tudo que ele faz o mais importante é a prática do auto, quer dizer vindo dele mesmo. Autodisciplina, autodidata, autogestão de si mesmo.  
            Não poderia existir, porque diziam ser um caos e a desordem e, portanto, uma utopia, que os salários ou as rendas fossem semelhantes para todos.
            Teria de existirem sempre pobres e ricos, chefes e chefiados e a maioria dos seres humanos estaria condenada a ser sempre infeliz.

            Entretanto:
           
             1 - Atualmente existem leis, nos países mais desenvolvidos politicamente, que garantem que todos não podem, sob que pretexto for, ser discriminados, excluídos, humilhados, intimidados, emudecidos, espancados e assassinados. Por mais diversos que sejam todos são tratados como iguais. Diferentes mas iguais.
            2 - Que os salários ou rendas não sejam muito diferentes.
            3 - Abolir o desemprego ou, se existirem desempregados, serem mantidos dignamente pela sociedade, até conseguirem trabalhar.
            Estes sempre foram os objetivos e o programa político dos anarquistas. Estão, sendo praticados, sem dizer o nome anarquismo, nos países que têm hoje a melhor qualidade de vida para todos.
           
            A Prática Política
            O que estamos vendo atualmente são as conquistas de lutas específicas associadas: feminismo, eliminação do racismo, de todo tipo de censura, a prática do amor livre e a eliminação da miséria. Essas lutas têm conseguido garantir por leis vitórias vindo de baixo para cima e assim mudar o mundo sem tomar o poder. Ou seja, quase sempre pacificamente, pelo consenso da maioria, resultado da formação de opiniões que foram pacientemente disseminadas pelos anarquistas, para mudando mentalidades libertar milhões de pessoas da sujeição e da miséria física e moral.
            Portanto sem tomar o poder, mas transformá-lo, com as alterações de leis que proíbem para leis libertárias que garantem relações humanas sem exercício de poder. Quer dizer o poder existe só para os que quiserem exercer o poder sobre os outros. Toda desordem, crimes e violência são provocados por aqueles que querem exercer o poder sobre os outros. O anarquismo é a ética política porque respeita absolutamente a liberdade do outro  uma vez que toda e única imoralidade é não respeitar a liberdade e igualdade de todos. Sem o anarquismo não há ética. Essa é, atualmente, a vitória do anarquismo. 

            Conclusão:
            Lembrem-se que o sucesso do anarquismo e o fracasso de outras tentativas de mudar as relações de poder nas sociedades foram porque:
           1 - O anarquismo teve como seu objeto de pesquisa o poder e não a economia, religiões, filosofias ou qualquer resultado de outro objeto de pesquisa que não fosse o poder.  A sua diferença com as outras teorias políticas portanto foi epistemológica.
            2 – Incentivaram e participaram de lutas específicas associadas sem partidos ou chefes porque perceberam que tendo chefes e líderes com seus discursos sempre se tornaram novos dominadores e privilegiados ditadores quando tomaram e exercitaram o poder.
            3 - Por isto a ação anarquista sempre foi, quase sempre pacificamente, mudar o mundo sem tomar o poder. De baixo para cima e não de cima para baixo. Como se está fazendo até agora: mudando gradativa e especificamente dominações e explorações por igualdade e liberdade. E, como método de ação, mostrar sempre os absurdos da sujeição desde as microfísicas do poder para transformá-las em relações humanas sem exercício do poder. Portanto formando opiniões para mudar mentalidades e ações autoritárias. E, portanto, com o consenso da maioria, como estamos vendo no mundo quase todo, na maioria das vezes pacificamente, livrarem da submissão e de todos os tipos de misérias, milhões de pessoas em vários lugares no mundo. Os anarquistas têm, como prática política, as vezes pequenos e livres grupos de disseminação de opiniões. Isto é, no aqui e agora, sem profecias nem utopias. Esta é a vitória do anarquismo. Este é o anarquismo contemporâneo. Esses são os sucessos do anarquismo.
           

4 - Os anarquistas agem principalmente com suas análises críticas a todo tipo de dominação sugerindo e praticando alternativas libertárias. Fazem isso porque sabem que os partidos ou outras formas de lutas autoritárias são resultados de estratégias de poder criados por dominadores para melhor gerir a dominação em proveito próprio. São lutas de dominadores pelo poder. E os que pensam diferente são engolidos pelo poder. Esses partidos podem se mostrar, em alguns momentos multidões teatrais e fazer assim crer que são muito poderoso e com multidões indo atrás. Não é bem assim que é a realidade. A multidão que os segue são atores amadores que na realidade são muitas vezes pagos para as formarem, atraem também muitos oportunistas  querendo ganhar muito sem trabalhar, fracassados e os inocentes úteis que, devido a falta de perspicácia, não percebem que estão sendo massa de manobra seguindo novos ditadores. Quantos desses partidos já vimos desaparecer de uma hora para outra? Morrem muito mais partidos do que os que existem. E só os que têm vida longa é porque se entronaram no poder e chegará o dia do seu final. Os anarquistas estão, algumas vezes sem dizer o nome,  mudando o mundo sem tomar o poder e livrando  milhões de pessoas, em muitos países, da dominação e da miséria. Estas são as vitórias do Anarquismo Contemporâneo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A Analítica do Poder no Anarquismo e em Foucault

     
                                                                                                                                                                   Ricardo Líper                                   
          
Resumo

Tanto os anarquistas como Foucault tiveram como objeto de pesquisa as consequências do poder na constituição do sujeito. Não examinaram o poder como resultado nem da economia nem de contratos sociais. O pesquisaram empiricamente sem metafísica, historicismo, idealismo, hegelianismo. Usaram o mesmo objeto e o mesmo método em suas pesquisas. E constataram que a dominação e exploração do homem pelo homem foram executadas pelo exercício do poder e só com o seu enfrentamento é possível uma libertação dos homens com a organização de uma sociedade plenamente democrática e libertária. Foucault centralizou suas pesquisas na constituição da subjetividade do sujeito resultado das relações entre verdade e poder e propôs a solução com a reedição do cuidado de si, na qual o sujeito, sendo o mestre de si mesmo, enfrenta o poder. E os anarquistas postularam eliminar o poder em todas as relações humanas pelas mesmas razões. Essas duas soluções, tanto dos anarquistas como de Foucault, somam-se devido à mesma metodologia na análise do mesmo objeto de pesquisa. Por isso a questão da dominação do sujeito pelas relações de poder é, antes de tudo, epistêmica. Quer dizer que a conclusão da análise do poder, na condição e constituição do sujeito, depende da maneira de como ele foi analisado sendo objeto de pesquisa e com qual metodologia.

Palavras-chaves: anarquismo, epistemologia, poder.

Abstract

The Analytics of Power in Anarchism and in Foucault's Thought

As anarchists as Foucault had the consequences of power in subject constitution as their research goal. They don't examine it as result of econmics nor social contract one. They research it empirically without methaphisics, historicism, idealism or hegelianism. They use the same object and the same method in both works. They find the domination and exploration of man by man was made by power and conclude that only with struggling against power would be possible the men's freedom with the social organisation fully democratic and libertary one. Foucault focused your researches on subject subjetivity constitution as resultant of relations between truth and power and he proposes as solution the reissue of self care, in which the subject, being the master of himself, faces the power. The anarchists postulated the elimination of power in all of human relations for the same reasons. These two solutions add due the same methodology in analysis of the same research goal. For this, the question of domination of subject by the relations of power is, before of all, an epistemic question. That is the conclusion of analysis of power, in subject condition and constitution, depends the way how it was analysed as research goal and with such methedology.

KEYWORDS: ANARCHISM, EPISTEMOLOGY, POWER






            A Questão Epistemológica

            O objeto de pesquisa, para os anarquistas e Foucault, foi a constituição do sujeito resultado do exercício das relações de poder.
            Recusaram suposições de que existiriam outras causas que fizeram surgir o poder.  O poder não foi examinado por eles como resultado da economia, do homem ser o lobo do homem, de contratos sociais ou legislações jurídicas. Rejeitaram qualquer tipo de metafísica, historicismo, idealismo, hegelianismo. Foram empiristas na sua metodologia. Analisaram o poder como ele se manifesta que são as estratégias e práticas de dominação e exploração do sujeito. E a partir dessa análise focaram ele pode enfrentá-lo para deixar de ser sujeito tornando-se o mestre de si mesmo.
             O que ocorreu foi um equívoco na análise do poder como objeto de pesquisa quando não se estudou como ele existe na sua prática. Substituíram a análise de como o poder existe, se manifesta e age por suposições metafísicas e a-históricas do que é o poder.
            É de suma importância evidenciar esse engano porque suas consequências foram grandes na dominação do homem pelo homem. É exatamente a partir desse mal-entendido, na análise do poder, que aqui vamos analisar suas consequências teóricas e políticas.
            Foucault assim descreveu sua pesquisa: “Não é, pois, o poder, mas o sujeito que constitui o tema geral de minhas pesquisas. É verdade que fui levado a interessar-me de perto pela questão do poder”. [1]
            Analisar as práticas do poder como um objeto de pesquisa sem ser resultado de outras causas aproxima os anarquistas com o pensamento de Foucault. O que os diferencia é que, em alguns momentos, examinam diferentes aspectos dessa mesma questão. Mas o essencial é que, tanto para Foucault como para os anarquistas, o exercício do poder é o fato central para explicar a sujeição na dominação do homem pelo homem. E, para ambos, a solução é excluí-lo em todas as suas formas e suas práticas. É isto que chamamos de anarquismo.   
                                                          
            O poder só existe onde e como exerce suas ações. Não tem uma causa porque ele é a causa e não o efeito. A dominação é a causa. Ela é uma prática. Ocorre por quem pode exercê-la pela força e ou nas estratégias de criar dispositivos [2] suficientes para dominar o próximo. Por isso os anarquistas recusaram todos os tipos de governos porque são exercidos para executar a dominação e exploração do sujeito.
            Foucault descobriu como a vontade de verdade através de seus discursos é uma dessas estratégias. Suas pesquisas do que é e como se exerce o poder, o levou a uma terminologia e conceitos próprios como discurso, episteme, sujeito. Quer dizer, como o discurso, resultado das epistemes [3] de cada época, se dizendo verdade absoluta, gerou o sujeito.
            Já os anarquistas chegaram à mesma conclusão, por outro caminho, que foi diagnosticar o autoritarismo disseminado na sociedade como a causa principal da sujeição. Sébastien Faure definiu assim o anarquismo: “Quem negar a autoridade e a combater é um anarquista”. São focos diferentes do mesmo objeto que mais se somam do que se eliminam.
            Em ambos a reação ao poder não é se tomar o poder porque o seu exercício do poder, seja por quem for o sob que razão, o obrigará a servi-lo senão não o está nem tomando nem o exercendo. Seja que pretexto for, ao se tomar o poder, tem de executá-lo senão o perde e, na maioria das vezes, o tem de exercer como uma ditadura. A história tem mostrado isso monotonamente.
            Para eliminar a dominação do homem pelo homem, tem de se substituir as relações de poder por relações humanas sem exercício de poder. Alterar a base que sustenta a superfície. É no resultado do poder no sujeito sujeitado que se dá o enfrentamento político. É nesse campo que primeiro se identifica onde ocorrem as relações de poder e as substitui por relações humanas sem o exercício do poder. Não é no atacado é no varejo que se age. Porque, neste caso é o varejo, a microfísica do poder, que forma o atacado.  Ou seja, eliminar o alicerce para o seu edifício ruir. E isto só foi possível porque o analisaram como a causa e não o efeito. O poder não é um epifenômeno, é o fenômeno. Ele se manifesta em rede formando uma malha que envolve toda a sociedade. Transita em todos nós para manter-se e existir. Se todos nós não nos tornarmos pequenos ditadores ele não consegue ser exercido porque não consegue circular em rede em toda a sociedade. Tanto nos anarquistas como em Foucault foi, no sujeito, o centro da análise na qual o poder se exerce. E só com sua recusa de exercer o poder se tornam preparados para enfrentá-lo modificando suas relações de poder em relações humanas sem exercício de poder.
             Foucault percebeu que sem uma transformação do sujeito não se podia acessar o conhecimento sem ser vítima do poder. Ele chegou a essa conclusão com a descoberta do cuidado de si ser eliminado no ato de conhecer e remeteu-se em A Hermenêutica do Sujeito e A Vontade de Verdade, aos estóicos e cínicos como um caminho para o enfrentamento do poder.
            Nas suas pesquisas históricas das relações de poder, descobriu que tinha ocorrido uma alteração epistemológica de como se acessava a verdade desde o início da filosofia. Na Grécia antiga o cuidado de si subordinava o conhece-te a ti mesmo. Isso quer dizer que, antes do ato de conhecer o homem tinha como pré-requisito, o cuidado de si, que significa um treinamento para a defesa do que é o humano, como a meta fundamental da sua liberdade e, portanto, subordinava o conhece-te a ti mesmo no ato de conhecer. O conhece-te a ti mesmo foi, nesse contexto, direcionado para ser um método para se acessar o conhecimento.
                Mas o cuidado de si, como acontecia na Grécia antiga, foi eliminado no que Foucault chamou de momento cartesiano. Descartes, no seu método a partir da sua máxima, penso logo existo, eliminou o cuidado de si no ato de conhecer. Depois Foucault disse que usou o nome de Descartes, mas não necessariamente o estava colocando como o vilão da história. O mais importante foi diagnosticar o momento que ocorreu no racionalismo que depois se desenvolveu no iluminismo e permitiu cada vez mais, uma cisão da razão na eliminação do homem como ser humano no ato de conhecer. O mais importante era mostrar esse momento ele o chamou, de uma forma de geral como quase uma brincadeira, de cartesiano.     

Para começar, consideremos a situação, se quisermos, na direção ascendente. O corte não se fez bem assim. Não se fez no dia em que Descartes colocou a regra da evidência ou descobriu o cogito, etc. Havia muito tempo já se iniciara o trabalho para desconectar o princípio de um acesso à verdade unicamente nos termos do sujeito cognoscente e, por outro lado, a necessidade espiritual de um trabalho do sujeito sobre si mesmo, transformando-se e esperando da verdade sua iluminação e sua transfiguração. Havia muito tempo que a dissociação começara a fazer-se e que um certo marco fora cravado entre esses dois elementos. E esse marco, bem entendido, deve ser buscado... do lado da ciência? De modo algum. Deve-se buscá-lo do lado da teologia. A teologia (essa teologia que, justamente, pode fundar-se em Aristóteles [...] e que, com Santo Tomás, a escolástica, etc., ocupará, na reflexão ocidental, o lugar que conhecemos), ao adotar como reflexão racional fundante, a partir do cristianismo, é claro, uma fé cuja vocação é universal, fundava, ao mesmo tempo, o principio de um sujeito cognoscente em geral, sujeito cognoscente que encontrava em Deus, a um tempo, seu modelo, seu ponto de realização absoluto, seu mais alto grau de perfeição, e simultaneamente, seu Criador, assim como, por consequência, seu modelo. A correspondência entre um Deus que tudo conhece e sujeitos capazes de conhecer, sob o amparo da fé é claro, constitui sem duvida um dos principais elementos que fazem [fizeram] com que o pensamento ou as principais formas de reflexão – ocidental e, em particular, o pensamento filosófico se tenha desprendido, liberado, separado das condições de espiritualidade que os haviam acompanhado até então, e cuja formulação mais geral era o princípio da epiméleia heautoû. (FOUCAULT escreveu em A Hermenêutica do Sujeito, publicada em São Paulo pela editora Martins Fontes em 2011 na página 26).

            Embora até agora tenhamos mostrado como Foucault recusou o racionalismo de Descartes, essa afirmação, nesse excerto, é que estabelece como o cuidado de si foi eliminado, a partir daí, de como se acessa a verdade.                                                   
            Ou seja, não se podia substituir o que é humano pelo raciocínio e, talvez até pela matemática e taxonomia, no sujeito cognoscente, sem perder sua humanidade e liberdade.
            Se o penso logo existo foi privilegiado como fundamento de como será gerado o conhecimento, foi criado um método em que tudo pode ser analisado e explicado nos exercícios da razão, ou seja, na consciência sem o corpo ou nada que seja humano além da razão. E a consequência é que qualquer um, sem outro requisito desde que não seja louco, seguindo esse método pode acessar o conhecimento. O humano foi substituído por uma parte do que é ser humano que é o raciocínio, mas sem ele.  Eliminou-se o humano no ato de conhecer. Quer dizer, no momento cartesiando, se eliminou, epistemológica e politicamente, o próprio homem o reduzindo o ser uma consciência aprisionada em um racionalismo. Porque o humano é que está implícito no cuidado de si quando foi criado pelos espartanos.
O cuidado de si, como está descrito no Primeiro Alcíbiades de Platão, surgiu quando um espartano, ao ser perguntado por que eles não cultivavam suas terras as deixando esse encargo para os hilotas, respondeu que precisavam cuidar de si.
Para melhor entender esse desdobramento entre ética e epistemologia, temos de começar quando Foucault então fez uma ressalva: o cuidado de si não foi uma premissa inicialmente filosófica.

Primeiro se é verdade que é com Sócrates, e em particular no texto Alcibíades, que assistimos à emergência do cuidado de si na reflexão filosófica, não devemos contudo esquecer que o principio ‘ocupar-se consigo’ – como regra, como imperativo, imperativo positivo do qual muito se espera – não foi, desde a origem e ao longo de toda a cultura grega, uma recomendação para filósofos, uma interpelação que um filósofo dirigia aos jovens que passam pela rua. Não foi uma atitude intelectual, nem um conselho dado por velhos sábios a alguns jovens demasiado apressados. Não, a afirmação, o princípio ‘é preciso ocupar-se consigo mesmo’ era uma antiga sentença da cultura grega. Uma sentença, em particular, lacedemônia. Em um texto, aliás tardio pois é de Plutarco, referente porém a uma manifestamente ancestral e plurissecular, Plutarco retoma uma palavra que teria sido de Alexândrides, um lacedemônio, um espartano, a quem um dia se teria perguntado: mas afinal, vós, espartanos, sois um tanto estranhos; tendes muitas terras e vossos territórios são imensos ou, pelo menos muito importantes; por que não os cultivais vós mesmos, por que os confiais a hilotas? E Alexândrides teria respondido: simplesmente para podermos nos ocupar com nós mesmos. (FOUCAULT escreveu em A Hermenêutica do Sujeito, publicada em São Paulo pela editora Martins Fontes em 2011 na página 30).

            O cuidado de si foi uma transformação inicialmente física que se originou em um treinamento militar para os espartanos não serem dominados e escravizados por outros povos. Teve uma origem militar. Mas depois se tornou principalmente cognoscente e subjetiva e mais tarde ampliado, epistemológica e politicamente com os estóicos e cínicos, para todos não serem escravos não só dos outros mas, principalmente, não serem escravos de si mesmos.

Já que, para os gregos, liberdade significa não-escravidão – o que é, de qualquer forma, uma definição de liberdade muito diferente da nossa -, considero que o problema já é inteiramente político. Ele é político uma vez que a não-escravidão em relação aos outros é uma condição: um escravo não tem ética. A liberdade é, portanto, em si mesmo política. Além disso, ela também tem um modelo político, uma vez que ser livre significa não ser escravo de si mesmo nem de seus apetites, o que implica estabelecer consigo mesmo certa relação de domínio, de controle, chamada de arché – poder, comando. (FOUCAULT em uma entrevista A ética do cuidado de si como prática da liberdade publicada em Michel Foucault Ditos e Escritos V   Forence Universitária no Rio de janeiro em 2006 na página 270).

            Quer dizer, no momento cartesiando, se eliminou, epistemológica e politicamente, o próprio homem o reduzindo o ser uma consciência aprisionada em um racionalismo. É esse equívoco que depois vai ser desenvolvido também pela fenomenologia de Husserl. E nesta razão cindida, devido ao acesso equivocado do saber ao eliminar o cuidado de si, que era o humano no ato de conhecer, suas verdades vêm das coisas e se exerce sobre eles.  É então que a vontade do saber se associa a vontade de poder. Um saber que se imagina dominando as coisas é dominado por quem o exerce. Algo semelhante ao poema de Goethe sobre o aprendiz de feiticeiro que desencadeou uma força na qual ele sucumbe nela como ocorreu com a bomba atômica e outras atrocidades efetuadas pelo exercício do poder com a eliminação do cuidado de si no ato de conhecer. E que também foi ilustrado por Mary Shelley, no seu romance, Frankenstein.
            Mas o mais grave foi que o sujeito inicialmente fica escravo das coisas que pesquisa em uma aparente liberdade epistemológica e dos homens nomeados como cientistas seus gestores. Mas depois o sujeito cognoscente pode ser e foi objeto de si mesmo com o surgimento das ciências humanas. Ele passou a ser analisado como uma coisa e, portanto, as dominações das coisas se estenderam a dominação, pelo saber, do sujeito ao se tornar um duplo empírico transcendental.
            O que se requisita portanto, tanto nos anarquistas com em Foucault, é a reedição do cuidado de si como enfrentamento do poder. Os anarquistas podem chamar o  cuidado de si, que é sinônimo de  exercício de liberdade sem o domínio do governo e sem Estado, de anarquismo. 
            Portanto o cuidado de si em Foucault não é só epistêmico é também político e revolucionário. E podemos dizer até que o cuidado de si é epistêmico, político, revolucionário e anarquista.
              Quando Foucault estudou, primeiro aos estóicos e depois os cínicos, nos seus dois últimos cursos ministrados no College de France, se assemelha às reflexões de Han Hyner [4] sobre a importância dos estóicos para os anarquistas. Em Foucault a reedição do cuidado de si insere o homem em uma ética na qual o humano prevalece nele como o mestre de si para não ser escravo dos outros nem de si mesmo e, assim criar, sem universais, sua ética e estética da existência.
            Horkheimer publicou em 1937 Teoria Tradicional e Teoria Crítica e mostrou que a teoria tradicional, relacionada com pensamento de Descartes, excluía o social e postulou a solução com o que chamou de Teoria Crítica na qual inseria o social, ou seja, o homem.
            Nietzsche, nas suas reflexões sobre o Apolíneo e o Dionisíaco na sua Origem da Tragédia também pode ser lida, como uma cisão da razão semelhante à eliminação do cuidado de si do conhece-te a ti mesmo.

                                   
            As  Consequências 

            Ser contra a todas as formas de dominação do sujeito pelos exercícios de poder tornou-se uma teoria chamada anarquismo, que foi, e está cada vez mais, se alastrando nas sociedades.
            Um número cada vez maior de pessoas recusa as autoridades, se tornam mestres de si mesmas e se associam entre si, em relações humanas sem o exercício de poder, para mudar aquilo que lhes indigna. E então, gradativamente, essas micro-ações diretas, vão eliminando os micropoderes e termina organizando a sociedade sem exercícios de poder. Essa é que é uma real revolução e não novas dominações com o nome de revoluções.
            Os anarquistas efetuam, no aqui e agora, várias experiências para se estabelecer relações humanas sem exercício de poder. Essas experiências são as práticas, em uma espécie de laboratório, de sua ciência política. Sua ação tem dois aspectos que se combinam: a crítica a qualquer tipo de exercício de poder do homem pelo homem e experiências de relações sem exercício de poder em heterotopias anarquistas. Eles executam, em seus pequenos espaços e na sua relação diária com os outros, já uma revolução. Eles expulsam de si qualquer tipo de autoritarismo e se transformam assim em anarquistas na teoria e na prática. Criam cada vez mais novas formas de ser e viver sem exercícios de poder nas escolas, nas famílias, nas relações amorosas e em todas as relações humanas.  Criam e apoiam todas a libertações do sujeição que lutam todas as formas de sujeição.
             Os que querem tomar ou participar do poder não fazem essa transformação pessoal como os anarquistas e nem criam heterotopias ou experiências de relações sem poder. Eles visam manter o poder do Estado e do governo como são e não abrem mão de nenhum poder pessoal em sua vida, teoria e pensamentos.
             Os anarquistas trazem no corpo e nas suas ações a revolução, se possível, em todos locais, em todas as horas e todos os dias E, ao mesmo tempo, lutam para disseminar, pacificamente, em toda sociedade o seu exemplo e sua teoria. Daí os temas recorrentes no anarquismo de autogestão, horizontalidade de organizações substituindo verticalidades, ação direta etc. E cada vez mais pessoas aderem e assim se tem mudado o mundo. Daí tem surgindo, cada vez mais, lutas setorizadas sem partidos e sem governos.
            Partidos e governos são levados a reboque, porque, na sua única necessidade de   manter  e  se conservarem no poder, cedem.
                Os partidos foram resultados de uma estratégia das relações de poder no que foi chamado de democracia. Todos eles se organizam para tomar o poder. Criam suas propostas para atrair, os que acreditarem nelas, para os elegerem nos jogos de poder chamados de democracia. Nasceram para limitar as lutas sociais violentas em uma arena política criada por quem domina no poder. Imposta essa regra  todos visam tomar uma pequena ou grande fatia do governo ou ficar tentando a cada eleição.
             Comem as migalhas, às vezes suculentas, mas migalhas se comparadas com o banquete de quem domina todos e exerce o governo. Eles se elegem como se auto determina que é ser o intermediário profissional entre o povo e o poder. Procuram tomar todas as ações populares de libertação para ele.  Eles se impõem, com várias artimanhas, para se apossar dos movimentos sociais e, dizendo que os está liderando e tomar para si o poder, e uma vez no poder, encerra sua função. Por isso, seja qual for suas propostas, elas nascem mortas porque vão, de acordo em acordo com forças maiores que a deles em benefício próprio, fazendo o jogo do poder e assim neutraliza tudo que pode mudar a realidade, no aqui e agora, para se manter sempre no poder. Só cede quando o povo já conquistou o que postulava e aí vai a reboque. E o povo já percebeu que a maioria do que eles o dizem que vão fazer jamais fazem. Se eles não comprarem quem vai votar neles, sugerindo que vão lhes empregar e proporcionar privilégios, não se elegem. Quando eles fazem alguma coisa a favor de uma maior liberdade é sob a pressão das ações de grande parte da população, sem partido e sem poder, que ele não pôde dominar, se apropriar e neutralizar. Foram obrigados a ceder.
            Quem podia imaginar que partidos burgueses, socialistas e comunistas iriam colocar nas suas agendas e nos seus cartazes um negro, uma mulher e uma pessoa que ama pessoas do mesmo sexo? Todos esses partidos foram sempre contra a liberdade das mulheres, das relações sexuais livres, da luta contra o racismo. Não davam muita ênfase, mesmos os socialistas, as lutas raciais porque tinham as viseiras que era a economia que explicava o poder. Devido a essa curiosa e equivocada maneira de pensar só viam tudo como luta de classes. Logo negros, mulheres, crianças, loucos, pacientes de médicos, prisioneiros não eram vistos em sua cegueira política e só era  focado no operariado. Fora disto não existia sujeição porque eram politicamente reduzidos a manipulação dos operários ignorando e assim apoiando como pensava a população de acordo com os discursos e comportamentos de dominação impostos pela Igreja Católica e pela burguesia. Daí não iriam lutar a favor dos párias da sociedade que eles mesmos não aceitavam os seus comportamentos e muitos menos contrariar os operários que muitas vezes dominavam suas mulheres, filhos, e também absorviam uma moral sexual da sociedade burguesa. Nunca contestaram nem a mentalidade burguesa e pequeno burguesa nem a domínio moral e comportamental da Igreja Católica ou qualquer religião vigente. Não perceberam que também os operários são resultado de relações de poder porque sem se ter poder  não se tem nem escravos nem operários.
             Por isso que a ação anarquista tem mostrado que é mais eficiente em mudar, no aqui e agora, a sujeição do sujeito libertando milhões de pessoas de grandes sofrimentos. Enquanto isso os que se abrigam nos partidos fazem sua carreira de político profissional, muito comportadamente, para exercer o poder para ganhar e amealhar capital.
            Estamos vendo, gradativamente, o desaparecimento do poder sendo substituído por organizações sem relações de poder. Já ocorreu com a libertação das mulheres e sua igualdade com os homens, das vítimas do racismo, a abolição da palmatória e dos castigos dos alunos nas escolas e outras vitórias contra os poderes que vão perdendo terrenos, com a prática libertária de eliminar o poder cortando os seus tentáculos. Ou seja o expulsando dos corpos e dos locais onde eram exercidos. Criando alternativas a comportamentos, áreas e instituições sem exercício de poder.

       Proporei, como ponto de partida, tomar uma série de oposições que se desenvolveram nesses últimos anos: a oposição ao poder dos homens sobre as mulheres, dos pais sobre seus filhos, da psiquiatria sob os doentes mentais, da medicina sobre a população, da administração sobre a maneira como as pessoas vivem.
       Não basta dizer que essas oposições são lutas contra a autoridade; deve-se tentar definir mais precisamente o que elas têm em comum. (...) São lutas anárquicas. (Foucault em O sujeito e o Poder, publicado em Michel Foucault Ditos e Escritos IX pela editora Forense Universitária no Rio de Janeiro em 2014 nas páginas 121, 122).


            Gradativamente muitos, e não só os anarquistas, perceberam que o poder consome totalmente, em todos os detalhes, o corpo e a mente das pessoas na quais ele se exerce. Interfere e domina porque dita todas as suas ações: como se veste, fala, anda, pensa, pinta ou não o seu corpo. O poder possui o homem em corpo e alma. A alma é sua subjetividade que, nesse sentido, é a prisão do corpo. Não é só a força de trabalho que é explorada pelo exercício das relações do poder no corpo, mas todos os gestos e expressões corporais no que Foucault chamou de anatopolítica e depois acrescentou biopoder no curso Nascimento da biopolitica que ministrou no Collège de France em 1979.
            Em uma palestra, que foi ministrada em Salvador na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, que foi primeiramente traduzida e publicada em português pela revista anarquista Barbárie em 1981, Foucault diagnosticou que a dominação das relações sexuais é resultado da biopolítica:

        A vida entra no domínio do poder: mutação capital, uma das mais importantes, sem dúvida, na história das sociedades humanas. É evidente que se pode ver como o sexo pôde se tornar, a partir desse momento, quer dizer, a partir justamente do século XVIII, um peça absolutamente capital, pois, no fundo, o sexo é muito exatamente situado no ponto de articulação entre as disciplinas individuais do corpo e as regulações da população. (...) De outro lado, porém, o sexo é que garante a reprodução das populações. É com o sexo, com a política do sexo que podemos mudar a relação entre natalidade e mortalidade. De todo modo, a política da vida, que se tornou tão importante no século XIX. O sexo é o gonzo entre a anatomopolítica e a biopolítica, este está na encruzilhada das disciplinas e regulações. E é nessa função política de primeira importância para fazer da sociedade uma máquina de produção. (Foucault em As malhas do Poder, em Michel Foucault Ditos e Escritos VIII, publicado pela editora Forense Universitária, no Rio de Janeiro em 2012 nas páginas 180,181).

            Os anarquistas e Foucault perceberam que também os prazeres do corpo nada têm a ver com o sexo, é uma relação política de dominação no exercício do poder que incluiu os prazeres sexuais.  Na biopolítica a dominação é executada na capacidade humana de se reproduzir e assim expropriou os prazeres sexuais de sua liberdade e os vinculou aos interesses do poder na exploração dos corpos também através de fabricação dos seres humanos. Que, em grande parte, deveriam ser criados, pelos pais obrigados pela força das leis, para serem, principalmente, soldados, operários e camponeses. Um exercício do biopoder, não mais só a dominação individual anatomopolítica, mas da espécie no controle absoluto de sua reprodução, saúde e vida. Assim sendo o poder se exerceu também como o sujeito utiliza o seu próprio pênis e o seu sêmen. 
            Essa invasão estatal, policial e política nos prazeres eróticos foram vencidas pelos anarquistas com o uso apenas de duas palavras: amor livre.[5] Ou seja, a única relação sexual sem exercício de poder é o amor livre. Se os prazeres sexuais são consensuais entre pessoas adultas nada pode interferir, nem o Estado, leis, psicologias ou psiquiatrias, genética ou endocrinologia, religiões, ou seja, que discursos existam para dominá-los.        
            A história tem mostrado que essa ação direta tem sido a mais eficiente para se chegar a uma democracia plena e um socialismo libertário. Pode parecer estranha inicialmente, por ser muito diferente de tomar o poder para exercê-lo. Não é fácil expulsar o fascismo, ou seja, uma suposta necessidade do poder em todas as estâncias da vida, porque ele transita em nosso corpo em rede e só se pode mudar a dominação de si e dos outros quando bloqueamos a passagem do poder pelo nosso corpo, subjetividade e ações, ou seja, nos tornamos anarquistas.
             







[1] O Sujeito e o Poder, em Michel Foucault Ditos e Escritos IX, editado pela Editora Forence Universitária no Rio de Janeiro em 2014, na página 119. Sujeito, para Foucault, é o sujeito sujeitado.

[2] Inicialmente Foucault focou sua descoberta no discurso, resultado da episteme de cada época, e sua relação com o poder. O discurso é o que é dito. Entretanto existe o não dito, ou seja, o dispositivo: “um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos”. Sobre a História da Sexualidade entrevista que Foucault deu Alain Grosrichard traduzida e publicada em Microfisica do Poder de Roberto Machado que foi editado pela editora Graal, Rio de Janeiro em 1978, sexta edição, na página 243.
[3] São relações recorrentes que aparecem nos discursos, não percebidos por quem os enuncia, como se fossem hábitos de pensar. Portanto podem ser também descritos como um a priori histórico vigentes em cada época. Ele as analisou no Renascimento, Idade Clássica e Modernidade em As Palavras e as Coisas publicado em 1966.
[4] No livro de Han Hyner Manual Filosófico do Individualista publicado no Brasil pela Editora Germinal do Rio de Janeiro em 1966.

[5] Postularam isto ainda no século XIX  de forma pioneira nos meios operários sem temer enfrentar a moral sexual dominante entre eles imposta pela burguesia.