Ricardo Líper
Resumo
Tanto
os anarquistas como Foucault tiveram como objeto de pesquisa as consequências
do poder na constituição do sujeito. Não examinaram o poder como resultado nem
da economia nem de contratos sociais. O pesquisaram empiricamente sem
metafísica, historicismo, idealismo, hegelianismo. Usaram o mesmo objeto e o
mesmo método em suas pesquisas. E constataram que a dominação e exploração do
homem pelo homem foram executadas pelo exercício do poder e só com o seu
enfrentamento é possível uma libertação dos homens com a organização de uma
sociedade plenamente democrática e libertária. Foucault centralizou suas
pesquisas na constituição da subjetividade do sujeito resultado das relações
entre verdade e poder e propôs a solução com a reedição do cuidado de si, na
qual o sujeito, sendo o mestre de si mesmo, enfrenta o poder. E os anarquistas
postularam eliminar o poder em todas as relações humanas pelas mesmas razões.
Essas duas soluções, tanto dos anarquistas como de Foucault, somam-se devido à
mesma metodologia na análise do mesmo objeto de pesquisa. Por isso a questão da
dominação do sujeito pelas relações de poder é, antes de tudo, epistêmica. Quer
dizer que a conclusão da análise do poder, na condição e constituição do
sujeito, depende da maneira de como ele foi analisado sendo objeto de pesquisa
e com qual metodologia.
Palavras-chaves:
anarquismo, epistemologia, poder.
Abstract
The Analytics of Power in
Anarchism and in Foucault's Thought
As anarchists as Foucault had
the consequences of power in subject constitution as their research goal. They
don't examine it as result of econmics nor social contract one. They research
it empirically without methaphisics, historicism, idealism or hegelianism. They
use the same object and the same method in both works. They find the domination
and exploration of man by man was made by power and conclude that only with
struggling against power would be possible the men's freedom with the social
organisation fully democratic and libertary one. Foucault focused your
researches on subject subjetivity constitution as resultant of relations
between truth and power and he proposes as solution the reissue of self care,
in which the subject, being the master of himself, faces the power. The
anarchists postulated the elimination of power in all of human relations for
the same reasons. These two solutions add due the same methodology in analysis
of the same research goal. For this, the question of domination of subject by
the relations of power is, before of all, an epistemic question. That is the
conclusion of analysis of power, in subject condition and constitution, depends
the way how it was analysed as research goal and with such methedology.
KEYWORDS:
ANARCHISM, EPISTEMOLOGY, POWER
A Questão
Epistemológica
O objeto de pesquisa, para os
anarquistas e Foucault, foi a constituição do sujeito resultado do exercício
das relações de poder.
Recusaram suposições de que existiriam
outras causas que fizeram surgir o poder.
O poder não foi examinado por eles como resultado da economia, do homem
ser o lobo do homem, de contratos sociais ou legislações jurídicas. Rejeitaram
qualquer tipo de metafísica, historicismo, idealismo, hegelianismo. Foram
empiristas na sua metodologia. Analisaram o poder como ele se manifesta que são
as estratégias e práticas de dominação e exploração do sujeito. E a partir
dessa análise focaram ele pode enfrentá-lo para deixar de ser sujeito
tornando-se o mestre de si mesmo.
O que ocorreu foi um equívoco na análise do
poder como objeto de pesquisa quando não se estudou como ele existe na sua
prática. Substituíram a análise de como o poder existe, se manifesta e age por
suposições metafísicas e a-históricas do que é o poder.
É de suma importância evidenciar
esse engano porque suas consequências foram grandes na dominação do homem pelo
homem. É exatamente a partir desse mal-entendido, na análise do poder, que aqui
vamos analisar suas consequências teóricas e políticas.
Foucault assim descreveu sua
pesquisa: “Não é, pois, o poder, mas o sujeito que constitui o tema geral de
minhas pesquisas. É verdade que fui levado a interessar-me de perto pela
questão do poder”.
Analisar as práticas do poder como
um objeto de pesquisa sem ser resultado de outras causas aproxima os
anarquistas com o pensamento de Foucault. O que os diferencia é que, em alguns
momentos, examinam diferentes aspectos dessa mesma questão. Mas o essencial é
que, tanto para Foucault como para os anarquistas, o exercício do poder é o
fato central para explicar a sujeição na dominação do homem pelo homem. E, para
ambos, a solução é excluí-lo em todas as suas formas e suas práticas. É isto
que chamamos de anarquismo.
O
poder só existe onde e como exerce suas ações. Não tem uma causa porque ele é a
causa e não o efeito. A dominação é a causa. Ela é uma prática. Ocorre por quem
pode exercê-la pela força e ou nas estratégias de criar dispositivos
suficientes
para dominar o próximo. Por isso os anarquistas recusaram todos os tipos de governos
porque são exercidos para executar a dominação e exploração do sujeito.
Foucault descobriu como a vontade de
verdade através de seus discursos é uma dessas estratégias.
Suas pesquisas do
que é e como se exerce o poder, o levou a uma terminologia e conceitos próprios
como discurso, episteme, sujeito. Quer dizer, como o discurso, resultado das
epistemes
de
cada época, se dizendo verdade absoluta, gerou o sujeito.
Já os anarquistas chegaram à mesma conclusão,
por outro caminho, que foi diagnosticar o autoritarismo disseminado na
sociedade como a causa principal da sujeição. Sébastien Faure definiu assim o
anarquismo: “Quem negar a autoridade e a combater é um anarquista”. São focos
diferentes do mesmo objeto que mais se somam do que se eliminam.
Em ambos a reação ao poder não é se
tomar o poder porque o seu exercício do poder, seja por quem for o sob que
razão, o obrigará a servi-lo senão não o está nem tomando nem o exercendo. Seja
que pretexto for, ao se tomar o poder, tem de executá-lo senão o perde e, na
maioria das vezes, o tem de exercer como uma ditadura. A história tem mostrado
isso monotonamente.
Para eliminar a dominação do homem
pelo homem, tem de se substituir as relações de poder por relações humanas sem
exercício de poder. Alterar a base que sustenta a superfície. É no resultado do
poder no sujeito sujeitado que se dá o enfrentamento político. É nesse campo
que primeiro se identifica onde ocorrem as relações de poder e as substitui por
relações humanas sem o exercício do poder. Não é no atacado é no varejo que se
age. Porque, neste caso é o varejo, a microfísica do poder, que forma o
atacado. Ou seja, eliminar o alicerce para o seu edifício ruir. E isto só foi possível
porque o analisaram como a causa e não o efeito. O poder não é um epifenômeno,
é o fenômeno. Ele se manifesta em rede formando uma malha que envolve toda a
sociedade. Transita em todos nós para manter-se e existir. Se todos nós não nos
tornarmos pequenos ditadores ele não consegue ser exercido porque não consegue
circular em rede em toda a sociedade. Tanto nos anarquistas como em Foucault
foi, no sujeito, o centro da análise na qual o poder se exerce. E só com sua
recusa de exercer o poder se tornam preparados para enfrentá-lo modificando
suas relações de poder em relações humanas sem exercício de poder.
Foucault
percebeu que sem uma transformação do sujeito não se podia acessar o
conhecimento sem ser vítima do poder. Ele chegou a essa conclusão com a
descoberta do cuidado de si ser eliminado no ato de conhecer e remeteu-se em A
Hermenêutica do Sujeito e A Vontade de Verdade, aos estóicos e cínicos como um caminho para o
enfrentamento do poder.
Nas
suas pesquisas históricas das relações de poder, descobriu que tinha ocorrido
uma alteração epistemológica de como se acessava a verdade desde o início da
filosofia. Na Grécia antiga o cuidado de si subordinava o conhece-te a ti
mesmo. Isso quer dizer que, antes do ato de conhecer o homem tinha como
pré-requisito, o cuidado de si, que significa um treinamento para a defesa do
que é o humano, como a meta fundamental da sua liberdade e, portanto,
subordinava o conhece-te a ti mesmo no ato de conhecer. O conhece-te a ti mesmo
foi, nesse contexto, direcionado para ser um método para se acessar o
conhecimento.
Para começar, consideremos a situação, se quisermos,
na direção ascendente. O corte não se fez bem assim. Não se fez no dia em que Descartes
colocou a regra da evidência ou descobriu o cogito,
etc. Havia muito tempo já se iniciara o trabalho para desconectar o princípio
de um acesso à verdade unicamente nos termos do sujeito cognoscente e, por
outro lado, a necessidade espiritual de um trabalho do sujeito sobre si mesmo,
transformando-se e esperando da verdade sua iluminação e sua transfiguração.
Havia muito tempo que a dissociação começara a fazer-se e que um certo marco
fora cravado entre esses dois elementos. E esse marco, bem entendido, deve ser
buscado... do lado da ciência? De modo algum. Deve-se buscá-lo do lado da
teologia. A teologia (essa teologia que, justamente, pode fundar-se em
Aristóteles [...] e que, com Santo Tomás, a escolástica, etc., ocupará, na
reflexão ocidental, o lugar que conhecemos), ao adotar como reflexão racional
fundante, a partir do cristianismo, é claro, uma fé cuja vocação é universal,
fundava, ao mesmo tempo, o principio de um sujeito cognoscente em geral,
sujeito cognoscente que encontrava em Deus, a um tempo, seu modelo, seu ponto
de realização absoluto, seu mais alto grau de perfeição, e simultaneamente, seu
Criador, assim como, por consequência, seu modelo. A correspondência entre um
Deus que tudo conhece e sujeitos capazes de conhecer, sob o amparo da fé é
claro, constitui sem duvida um dos principais elementos que fazem [fizeram] com
que o pensamento ou as principais formas de reflexão – ocidental e, em
particular, o pensamento filosófico se tenha desprendido, liberado, separado
das condições de espiritualidade que os haviam acompanhado até então, e cuja
formulação mais geral era o princípio da epiméleia
heautoû. (FOUCAULT escreveu em A Hermenêutica do Sujeito, publicada em São Paulo pela editora
Martins Fontes em 2011 na página 26).
Ou seja, não se podia substituir o
que é humano pelo raciocínio e, talvez até pela matemática e taxonomia, no
sujeito cognoscente, sem perder sua humanidade e liberdade.
Se o
penso logo existo foi privilegiado como fundamento de como será gerado o
conhecimento, foi criado um método em que tudo pode ser analisado e explicado
nos exercícios da razão, ou seja, na consciência sem o corpo ou nada que seja
humano além da razão. E a consequência é que qualquer um, sem outro requisito desde
que não seja louco, seguindo esse método pode acessar o conhecimento. O humano
foi substituído por uma parte do que é ser humano que é o raciocínio, mas sem
ele. Eliminou-se o humano no ato de conhecer.
Quer dizer, no momento cartesiando, se eliminou, epistemológica e
politicamente, o próprio homem o reduzindo o ser uma consciência aprisionada em
um racionalismo. Porque o humano é que está implícito no cuidado de si quando
foi criado pelos espartanos.
O cuidado de si, como está descrito no Primeiro Alcíbiades de Platão, surgiu quando um espartano, ao ser
perguntado por que eles não cultivavam suas terras as deixando esse encargo para
os hilotas, respondeu que precisavam cuidar de si.
Para melhor entender esse desdobramento entre ética e epistemologia,
temos de começar quando Foucault então fez uma ressalva: o cuidado de si não
foi uma premissa inicialmente filosófica.
Primeiro se é verdade que é com Sócrates, e em
particular no texto Alcibíades, que
assistimos à emergência do cuidado de si na reflexão filosófica, não devemos
contudo esquecer que o principio ‘ocupar-se consigo’ – como regra, como
imperativo, imperativo positivo do qual muito se espera – não foi, desde a
origem e ao longo de toda a cultura grega, uma recomendação para filósofos, uma
interpelação que um filósofo dirigia aos jovens que passam pela rua. Não foi
uma atitude intelectual, nem um conselho dado por velhos sábios a alguns jovens
demasiado apressados. Não, a afirmação, o princípio ‘é preciso ocupar-se
consigo mesmo’ era uma antiga sentença da cultura grega. Uma sentença, em
particular, lacedemônia. Em um texto, aliás tardio pois é de Plutarco,
referente porém a uma manifestamente ancestral e plurissecular, Plutarco retoma
uma palavra que teria sido de Alexândrides, um lacedemônio, um espartano, a
quem um dia se teria perguntado: mas afinal, vós, espartanos, sois um tanto
estranhos; tendes muitas terras e vossos territórios são imensos ou, pelo menos
muito importantes; por que não os cultivais vós mesmos, por que os confiais a
hilotas? E Alexândrides teria respondido: simplesmente para podermos nos ocupar
com nós mesmos. (FOUCAULT escreveu em A Hermenêutica do Sujeito, publicada em São Paulo pela editora
Martins Fontes em 2011 na página 30).
O
cuidado de si foi uma transformação inicialmente física que se originou em um
treinamento militar para os espartanos não serem dominados e escravizados por
outros povos. Teve uma origem militar. Mas depois se tornou principalmente
cognoscente e subjetiva e mais tarde ampliado, epistemológica e politicamente
com os estóicos e cínicos, para todos não serem escravos não só dos outros mas,
principalmente, não serem escravos de si mesmos.
Já que, para os gregos, liberdade significa
não-escravidão – o que é, de qualquer forma, uma definição de liberdade muito
diferente da nossa -, considero que o problema já é inteiramente político. Ele
é político uma vez que a não-escravidão em relação aos outros é uma condição:
um escravo não tem ética. A liberdade é, portanto, em si mesmo política. Além
disso, ela também tem um modelo político, uma vez que ser livre significa não
ser escravo de si mesmo nem de seus apetites, o que implica estabelecer consigo
mesmo certa relação de domínio, de controle, chamada de arché – poder, comando. (FOUCAULT
em uma entrevista A ética do cuidado de
si como prática da liberdade publicada em Michel Foucault Ditos e Escritos V Forence Universitária no Rio de janeiro em
2006 na página 270).
Quer dizer, no momento cartesiando,
se eliminou, epistemológica e politicamente, o próprio homem o reduzindo o ser
uma consciência aprisionada em um racionalismo. É esse equívoco que depois vai ser
desenvolvido também pela fenomenologia de Husserl. E nesta razão cindida,
devido ao acesso equivocado do saber ao eliminar o cuidado de si, que era o
humano no ato de conhecer, suas verdades vêm das coisas e se exerce sobre eles.
É então que a vontade do saber se
associa a vontade de poder. Um saber que se imagina dominando as coisas é
dominado por quem o exerce. Algo semelhante ao poema de Goethe sobre o aprendiz
de feiticeiro que desencadeou uma força na qual ele sucumbe nela como ocorreu
com a bomba atômica e outras atrocidades efetuadas pelo exercício do poder com
a eliminação do cuidado de si no ato de conhecer. E que também foi ilustrado
por Mary Shelley, no seu romance, Frankenstein.
Mas o mais grave foi que o sujeito inicialmente
fica escravo das coisas que pesquisa em uma aparente liberdade epistemológica e
dos homens nomeados como cientistas seus gestores. Mas depois o sujeito
cognoscente pode ser e foi objeto de si mesmo com o surgimento das ciências
humanas. Ele passou a ser analisado como uma coisa e, portanto, as dominações
das coisas se estenderam a dominação, pelo saber, do sujeito ao se tornar um
duplo empírico transcendental.
O que se requisita portanto, tanto
nos anarquistas com em Foucault, é a reedição do cuidado de si como
enfrentamento do poder. Os anarquistas podem chamar o cuidado de si, que é sinônimo de exercício de liberdade sem o domínio do
governo e sem Estado, de anarquismo.
Portanto o cuidado de si em Foucault
não é só epistêmico é também político e revolucionário. E podemos dizer até que
o cuidado de si é epistêmico, político, revolucionário e anarquista.
Quando
Foucault estudou, primeiro aos estóicos e depois os cínicos, nos seus dois
últimos cursos ministrados no College de France, se assemelha às reflexões de
Han Hyner
sobre a importância dos estóicos para os anarquistas. Em Foucault a reedição do
cuidado de si insere o homem em uma ética na qual o humano prevalece nele como
o mestre de si para não ser escravo dos outros nem de si mesmo e, assim criar,
sem universais, sua ética e estética da existência.
Horkheimer publicou em 1937 Teoria Tradicional e Teoria Crítica e mostrou
que a teoria tradicional, relacionada com pensamento de Descartes, excluía o
social e postulou a solução com o que chamou de Teoria Crítica na qual inseria o social, ou seja, o homem.
Nietzsche, nas suas reflexões sobre
o Apolíneo e o Dionisíaco na sua Origem
da Tragédia também pode ser lida, como uma cisão da razão semelhante à
eliminação do cuidado de si do conhece-te a ti mesmo.
As Consequências
Ser contra a todas as formas de dominação
do sujeito pelos exercícios de poder tornou-se uma teoria chamada anarquismo,
que foi, e está cada vez mais, se alastrando nas sociedades.
Um número cada vez maior de pessoas
recusa as autoridades, se tornam mestres de si mesmas e se associam entre si,
em relações humanas sem o exercício de poder, para mudar aquilo que lhes
indigna. E então, gradativamente, essas micro-ações diretas, vão eliminando os
micropoderes e termina organizando a sociedade sem exercícios de poder. Essa é
que é uma real revolução e não novas dominações com o nome de revoluções.
Os anarquistas efetuam, no aqui e
agora, várias experiências para se estabelecer relações humanas sem exercício
de poder. Essas experiências são as práticas, em uma espécie de laboratório, de
sua ciência política. Sua ação tem dois aspectos que se combinam: a crítica a
qualquer tipo de exercício de poder do homem pelo homem e experiências de
relações sem exercício de poder em heterotopias
anarquistas. Eles executam, em seus pequenos espaços e na sua relação
diária com os outros, já uma revolução. Eles expulsam de si qualquer tipo de
autoritarismo e se transformam assim em anarquistas na teoria e na prática.
Criam cada vez mais novas formas de ser e viver sem exercícios de poder nas
escolas, nas famílias, nas relações amorosas e em todas as relações
humanas. Criam e apoiam todas a
libertações do sujeição que lutam todas as formas de sujeição.
Os que querem tomar ou participar do
poder não fazem essa transformação pessoal como os anarquistas e nem criam
heterotopias ou experiências de relações sem poder. Eles visam manter o poder
do Estado e do governo como são e não abrem mão de nenhum poder pessoal em sua
vida, teoria e pensamentos.
Os anarquistas trazem no corpo e nas suas
ações a revolução, se possível, em todos locais, em todas as horas e todos os
dias E, ao mesmo tempo, lutam para disseminar, pacificamente, em toda sociedade
o seu exemplo e sua teoria. Daí os temas recorrentes no anarquismo de
autogestão, horizontalidade de organizações substituindo verticalidades, ação
direta etc. E cada vez mais pessoas aderem e assim se tem mudado o mundo. Daí
tem surgindo, cada vez mais, lutas setorizadas sem partidos e sem governos.
Estamos
vendo, gradativamente, o desaparecimento do poder sendo substituído por
organizações sem relações de poder. Já ocorreu com a libertação das mulheres e
sua igualdade com os homens, das vítimas do racismo, a abolição da palmatória e
dos castigos dos alunos nas escolas e outras vitórias contra os poderes que vão
perdendo terrenos, com a prática libertária de eliminar o poder cortando os
seus tentáculos. Ou seja o expulsando dos corpos e dos locais onde eram
exercidos. Criando alternativas a comportamentos, áreas e instituições sem
exercício de poder.
Proporei, como ponto de partida, tomar uma série de
oposições que se desenvolveram nesses últimos anos: a oposição ao poder dos
homens sobre as mulheres, dos pais sobre seus filhos, da psiquiatria sob os
doentes mentais, da medicina sobre a população, da administração sobre a
maneira como as pessoas vivem.
Não basta
dizer que essas oposições são lutas contra a autoridade; deve-se tentar definir
mais precisamente o que elas têm em comum. (...) São lutas anárquicas.
(Foucault em O sujeito e o Poder,
publicado em Michel Foucault Ditos e Escritos IX pela editora Forense
Universitária no Rio de Janeiro em 2014 nas páginas 121, 122).
Gradativamente
muitos, e não só os anarquistas, perceberam que o poder consome totalmente, em
todos os detalhes, o corpo e a mente das pessoas na quais ele se exerce.
Interfere e domina porque dita todas as suas ações: como se veste, fala, anda,
pensa, pinta ou não o seu corpo. O poder possui o homem em corpo e alma. A alma
é sua subjetividade que, nesse sentido, é a prisão do corpo. Não é só a força
de trabalho que é explorada pelo exercício das relações do poder no corpo, mas
todos os gestos e expressões corporais no que Foucault chamou de anatopolítica
e depois acrescentou biopoder no curso Nascimento
da biopolitica que ministrou no Collège de France em 1979.
Em uma palestra, que foi ministrada
em Salvador na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, que foi
primeiramente traduzida e publicada em português pela revista anarquista Barbárie em 1981, Foucault diagnosticou
que a dominação das relações sexuais é resultado da biopolítica:
A vida entra no domínio do poder: mutação
capital, uma das mais importantes, sem dúvida, na história das sociedades
humanas. É evidente que se pode ver como o sexo pôde se tornar, a partir desse
momento, quer dizer, a partir justamente do século XVIII, um peça absolutamente
capital, pois, no fundo, o sexo é muito exatamente situado no ponto de
articulação entre as disciplinas individuais do corpo e as regulações da
população. (...) De outro lado, porém, o sexo é que garante a reprodução das
populações. É com o sexo, com a política do sexo que podemos mudar a relação
entre natalidade e mortalidade. De todo modo, a política da vida, que se tornou
tão importante no século XIX. O sexo é o gonzo entre a anatomopolítica e a
biopolítica, este está na encruzilhada das disciplinas e regulações. E é nessa
função política de primeira importância para fazer da sociedade uma máquina de
produção. (Foucault em As malhas do Poder,
em Michel Foucault Ditos e
Escritos VIII, publicado pela editora Forense Universitária, no Rio de
Janeiro em 2012 nas páginas 180,181).
Os
anarquistas e Foucault perceberam que também os prazeres do corpo nada têm a
ver com o sexo, é uma relação política de dominação no exercício do poder que
incluiu os prazeres sexuais. Na
biopolítica a dominação é executada na capacidade humana de se reproduzir e
assim expropriou os prazeres sexuais de sua liberdade e os vinculou aos interesses
do poder na exploração dos corpos também através de fabricação dos seres
humanos. Que, em grande parte, deveriam ser criados, pelos pais obrigados pela
força das leis, para serem, principalmente, soldados, operários e camponeses.
Um exercício do biopoder, não mais só a dominação individual anatomopolítica,
mas da espécie no controle absoluto de sua reprodução, saúde e vida. Assim
sendo o poder se exerceu também como o sujeito utiliza o seu próprio pênis e o
seu sêmen.
Essa
invasão estatal, policial e política nos prazeres eróticos foram vencidas pelos
anarquistas com o uso apenas de duas palavras: amor livre.
Ou
seja, a única relação sexual sem exercício de poder é o amor livre. Se os
prazeres sexuais são consensuais entre pessoas adultas nada pode interferir,
nem o Estado, leis, psicologias ou psiquiatrias, genética ou endocrinologia,
religiões, ou seja, que discursos existam para dominá-los.
A história tem mostrado que essa
ação direta tem sido a mais eficiente para se chegar a uma democracia plena e
um socialismo libertário. Pode parecer estranha inicialmente, por ser muito
diferente de tomar o poder para exercê-lo. Não é fácil expulsar o fascismo, ou
seja, uma suposta necessidade do poder em todas as estâncias da vida, porque
ele transita em nosso corpo em rede e só se pode mudar a dominação de si e dos
outros quando bloqueamos a passagem do poder pelo nosso corpo, subjetividade e
ações, ou seja, nos tornamos anarquistas.